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TIPOS DE DISCURSO

TIPOS DE DISCURSO

Em um texto narrativo, o autor pode fazer seu narrador contar a história de diferentes formas, porém, um aspecto precisa ser objeto de atenção ao se tratar desse foco narrativo: a maneira como as personagens se manifestam na narrativa..

Como se materializa a voz das personagens no enredo? A esse processo dá-se o nome de discurso narrativo.
No geral, existem três tipos de discurso “à disposição” de um narrador e é muito frequente encontrarmos mais de um deles utilizados em um mesmo texto. Cada um desses três “moldes” linguísticos apresenta características próprias e acrescenta intenções diferentes à narrativa.

DISCURSO DIRETO

O discurso direto caracteriza-se pela livre expressão da personagem, isto é, o narrador permite que a personagem tenha sua própria voz, manifestando-se de forma pessoal. Assim, o narrador apenas reproduz as palavras da personagem da maneira como foram imaginadas e proferidas, conservando, inclusive, a variação, o estilo, as expressões e até mesmo desvios normativos que possam ter sido ditos.

CARACTERÍSTICAS DO DISCURSO DIRETO

• No campo gramatical, um enunciado em discurso direto apresenta, normalmente, verbos dicendi, que são verbos como dizer, afirmar, ponderar, sugerir, perguntar, indagar, responder entre outros. Esses verbos podem introduzir o discurso, fechá-lo, ou mesmo, em alguns casos, virem intercalados no trecho.

• Outra característica estrutural típica são os recursos gráficos, como os dois-pontos, as aspas, o travessão e mesmo a mudança de linha para indicar as falas das personagens.

• Obviamente um enunciado não se utiliza de todos os recursos, sejam eles gráficos ou gramaticais, para existir. Porém, é comum a utilização de vários recursos combinados para conferir clareza ao enunciado, como, por exemplo, a existência de um verbo dicendi seguido de pontuação e mudança de linha.

• No campo da expressividade, o discurso direto apresenta a função de atualizar o acontecimento, como em um texto dramático, em que as personagens parecem vivas para o leitor, interagindo, tornando todo o episódio em um momento presente, como que se descortinando na frente do leitor.

• As personagens são ressaltadas em suas características, já que falam com suas próprias vozes e maneiras, restando ao narrador o simples papel de sinalizador das falas.

• O discurso direto confere fluidez, dinamismo e velocidade ao enunciado, exibindo espontaneidade e energia, especialmente por apresentar enunciados repletos de exclamações, interrogações, interjeições, vocativos e imperativos, traduzindo emoções e a expressividade características da linguagem oral.

A legião estrangeira (fragmento)
Clarice Lispector

Ofélia perguntou devagar, com recato pelo que lhe acontecia:

– É um pinto?

Não olhei para ela.

– É um pinto, sim.

Da cozinha vinha o fraco piar. Ficamos em silêncio como se Jesus tivesse nascido. Ofélia respirava, respirava.

– Um pintinho? certificou-se em dúvida.

– Um pintinho, sim, disse eu guiando-a com cuidado para a vida.

– Ah, um pintinho, disse meditando.

– Um pintinho, disse eu sem brutalizá-la.

Já há alguns minutos eu me achava diante de uma criança.
Fizera-se a metamorfose.

– Ele está na cozinha.

– Na cozinha? Repetiu fazendo-se de desentendida.

– Na cozinha, repeti pela primeira vez autoritária, sem acrescentar mais nada.

– Ah, na cozinha, disse Ofélia muito fingida, e olhou para o teto.
(…).

DISCURSO INDIRETO

O discurso indireto caracteriza-se pela incorporação da fala do personagem pelo discurso do narrador. Assim, o narrador apenas transmite o conteúdo que julga relevante da personagem, sem se importar com a voz, com as formas linguísticas utilizadas pela personagem no ato discursivo.

CARACTERÍSTICAS DO DISCURSO INDIRETO

• No campo gramatical, um enunciado em discurso indireto, tal como no discurso direto, também é introduzido por verbos dicendi. Entretanto, as falas das personagens surgem em forma de uma oração subordinada substantiva, normalmente, desenvolvida.

• No discurso indireto não existe qualquer marca gráfica expressiva, mantendo-se apenas a subordinação sintática como característica estrutural marcante.

• No campo da expressividade, o discurso indireto introduz um enunciado preocupado com a informatividade, com o conteúdo, diferenciando-se completamente do modelo teatral do discurso direto. Pode-se afirmar que o foco reside no que foi dito, não no como foi dito. Por ser um discurso contado por outro, situa-se sempre no passado, sem marcas de atualização do episódio.

• A forte subordinação sintática que caracteriza estruturalmente o discurso revela igual subordinação expressiva, na qual a voz da personagem está subordinada ao narrador, que escolhe aquilo que será mostrado e seleciona a forma como será expresso. Dessa forma a personagem não possui forma e expressão, sendo uma apropriação do narrador.

• Fundamentalmente, o discurso indireto privilegia o pensamento, a essência dos significados e conteúdos do enunciado, introduzindo uma narrativa mais lenta, densa e informativa

Dom Casmurro, Capítulo LXXXIII
o retrato
(Machado de Assis)

(…)

Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião provável do meu interlocutor, desde que a matéria não me agrava, aborrece ou impõe. Antes de examinar se efetivamente Capitu era parecida com o retrato, fui respondendo que sim. Então ele disse que era o retrato da mulher dele, e que as pessoas que a conheceram diziam a mesma cousa. Também achava que as feições eram semelhantes, a testa principalmente e os olhos. Quanto ao gênio, era um, pareciam irmãs.

(…)

TRANSPOSIÇÃO DO DISCURSO DIRETO PARA INDIRETO

DISCURSO INDIRETO LIVRE

O discurso indireto livre representa uma combinação dos discursos direto e indireto: mantém a posse do enunciado por parte do narrador, na mesma medida em que permite certo grau de liberdade à voz da personagem. Este estilo vem se destacando nas prosas nacionais e estrangeiras desde meados do século XX, cada vez mais privilegiado por conta de sua grande expressividade estilística.

Definindo-se pela negação, pode-se dizer que o discurso indireto livre não apresenta a voz personagem em sua forma característica (discurso direto) nem possui a missão objetiva de informar precisamente o leitor sobre o que foi dito (discurso indireto), mas serve para desenvolver proximidade entre o narrador e a personagem, confundindo suas vozes e visões, apresentando-os como se compartilhassem seus pensamentos, como se falassem como um só.

CARACTERÍSTICAS DO DISCURSO INDIRETO LIVRE

• No campo estrutural, combinam-se o fator gramatical, cuja característica é a liberdade sintática (o que aproxima o discurso indireto livre ao discurso direto); e o fator estético, definido pela conexão integral do narrador ao pensamento da personagem (o que aproxima o discurso indireto livre do discurso indireto).

• Por ser “livre”, não há qualquer marca gramatical de subordinação no enunciado, ainda que conserve as transposições típicas apresentadas para o discurso indireto.

• Por outro lado, preserva as marcas expressivas de oralidade, como interrogações e exclamações, além de manter também o vocabulário e as expressões das personagens da maneira como ditas.

• No campo da expressividade, o discurso indireto livre traduz-se em uma narrativa extremamente dinâmica e fluente, porém com acentuada preocupação estética. Artisticamente, permite a construção de prosas poéticas e de reflexões filosófico-existenciais de forma elegante e harmoniosa.

• Evidentemente, o discurso indireto livre não surge como único estilo discursivo em uma narrativa. É exatamente na diversidade da convivência com os outros estilos dentro de um mesmo trecho ou parágrafo que a narrativa mostra sua força e beleza, somando as características dos discursos e criando um universo que captura o leitor para a força do enredo apresentado.

Vidas Secas – Capítulo II
(Graciliano Ramos)
(…)
Fabiano orgulhava-se de ser um bicho. Um cabra. Cabra vivendo em terra alheia, cuidando de coisas alheias; ele entendia-se bem com a natureza. Sua vida seca e difícil o reduzira à condição natural: era um bicho, grunhia como bicho, relacionava-se com a família como um bicho e era feliz assim. Recordava-se de seu antigo patrão: seu Tomás da bolandeira, homem culto, inteligente, só não sabia mandar. Imaginem, em vez de mandar, pedia. Era um absurdo. Pedir?! Isso lá era jeito de tratar empregado?
(…)

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