A REVOLUÇÃO RUSSA – A VERDADE É SEMPRE REVOLUCIONÁRIA

O Estado imperial russo era, ao final do século XIX, um dos mais importantes países em termos de demografia e extensão territorial na Europa. Contudo, contraditoriamente, era a mais atrasada nação em termos econômicos, políticos e sociais. O contraste justifica a expressão “gigante de pés de barros” para definir a Rússia da virada para o século XX.
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A economia russa era essencialmente rural e o capitalismo no país poderia ser qualificado de tardio e dependente, pois, enquanto a Europa ocidental já passava por uma Segunda Revolução Industrial, o desenvolvimento industrial russo somente foi possível graças aos investimentos de países estrangeiros. A pequena Bélgica, por exemplo, exportava capitais para investir na nascente indústria moscovita.

Na organização política, os russos conservavam ainda a velha fórmula do Absolutismo Monárquico centralizado nas mãos do czar. Enquanto os ingleses superaram formalmente o Absolutismo em 1688, os franceses, em 1789, e os portugueses, em 1820, os russos viveriam sem a existência de um Parlamento regular até 1905. A sociedade russa acompanhava o compasso da agricultura, na qual a maior parcela da população retirava seu sustento. Os mujiques, isto é, os camponeses, sofriam com laços de servidão ainda em fins do século XIX. Somente em 1856, o czar Alexandre II aboliu a servidão. O processo de industrialização tardio e dependente, contudo, começaria a mudar, paulatinamente, a feição não somente da economia russa, mas também da sociedade, com um processo de urbanização e formação de um proletariado que comprometeria a própria existência da Monarquia. 

No fim do século XX, concomitante aos processos de abolição da servidão nos campos e investimentos capitalistas na Rússia, organizaram-se os primeiros grupos importantes de oposição ao sistema czarista. Uma tendência política, denominada Narodnik, advogava que os camponeses seriam a vanguarda de uma revolução social que colocaria termo ao czarismo.

O outro grupo, Partido Operário Social-Democrata Russo, defendia a versão marxista de liderança da classe proletária. O POSDR, contudo, sofreria, em 1903, uma cisão em seus quadros, dando origem aos bolcheviques (majoritários), de tendência marxista revolucionária que defendiam um partido disciplinado e profissional, e os mencheviques (minoritários), reformistas moderados que advogavam a formação de um partido de massas.

O ano de 1905 entrou para o calendário da História russa, segundo Trotsky, como o “Ensaio Geral” da Revolução Russa, pois seria um momento de crise nacional que culminaria com a organização de uma Duma, ou Parlamento, e dos Sovietes, ou conselhos populares de soldados e operários. O “Ensaio Geral” foi provocado basicamente por dois episódios: a derrota russa para os japoneses e o “Domingo Sangrento”. Os japoneses, motivados pela expansão imperialista, entraram em choque com os russos pela disputa da hegemonia no Pacífico. No ataque de Porto Arthur, os japoneses infringiram uma derrota definitiva contra a Marinha de guerra imperial, garantindo a escalada de conquista sobre a Península da Coreia, a Manchúria chinesa e o arquipélago das Sakalinas.

Aliado ao fracasso do expansionismo russo no Pacífico, que jogaria, posteriormente, o país em uma encarniçada disputa com os austro-húngaros pela península balcânica, houve o chamado “Domingo Sangrento”. Em 9 de fevereiro, cerca de 200 mil manifestantes, liderados pelo sacerdote da Igreja Ortodoxa, Georgi Gapon, reuniram-se a caminho do palácio de inverno do czar Nicolau II em São Petersburgo. A manifestação pacífica que pedia reformas políticas e melhorias para a classe trabalhadora seria dispersa a tiros pelos cossacos, tropa de elite do czar Nicolau II. A brutal repressão foi o estopim para uma sucessão de ondas grevistas e manifestações nos grandes centros urbanos com o intuito de forçar o czar a promover concessões.

Os social-democratas rapidamente aproveitaram a oportunidade para organizar conselhos populares de soldados e operários, os quais seriam a vanguarda do movimento revolucionário de outubro de 1917. Nicolau II, diante da repercussão negativa do massacre de S. Petersburgo e das manifestações nacionais, assinou um decreto em 30 de outubro de 1905, concordando em convocar uma Assembleia Nacional. Aparentemente era a vitória do modelo liberal moderado apregoado pelos mencheviques. A Monarquia Parlamentar russa, contudo, ficaria limitada a um jogo de cena, pois o czar mantinha prerrogativas políticas e militares, como, por exemplo, direito de dissolver a Assembleia e de comandar o Exército.

O PROCESSO REVOLUCIONÁRIO E AS REVOLUÇÕES

Em 1914, com o início da Grande Guerra, o Império russo assistiria a um processo de sucessivas derrotas militares na chamada “frente oriental”, que resultaria no fim da própria Monarquia da família Romanov. Os russos, conclamados pelo pretensioso eslavismo, que os tornava virtuais defensores dos sérvios na região balcânica, entraram em guerra contra alemães e austro-húngaros. O exército russo, a despeito de ser o mais numeroso da Europa, era também um dos mais atrasados em termos de tecnologia.

A Primeira Guerra Mundial foi a primeira grande guerra tecnológica do século XX. Enquanto o Império alemão era a expressão militar de uma tecnologia oriunda dos avanços e conquistas da Segunda Revolução Industrial, os russos enviavam seus homens sem quaisquer equipamentos que pudessem traduzir seus esforços bélicos em uma vitória militar decisiva contra a Tríplice Aliança. A frente oriental converteu-se em uma guerra entre a tecnologia alemã contra a defasagem russa.

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A guerra agravou os problemas já existentes na frágil economia russa. No início de 1917, as manifestações contra o governo se intensificaram. O calendário russo simbolizava o atraso do país em relação ao Ocidente: enquanto os russos estavam ainda em fevereiro, pois mantinham o calendário juliano, os ocidentais, que já viviam em março, adotavam o calendário gregoriano, reformado pela Igreja Católica. As sucessivas derrotas na guerra passaram a ser atribuídas ao czar Nicolau II, que teve a imprudência de manter o controle exclusivo sobre as Forças Armadas. Em fevereiro de 1917, segundo o calendário russo, o czar Nicolau II abdicou em favor de um parente próximo. O poder, entretanto, seria transferido para a Duma, de maioria moderada, e o deputado Alexander F. Kerensky se tornaria primeiro-ministro.

O governo Kerensky pouco se diferenciava em termos de políticas interna e externa: a população continuava a sofrer com o desabastecimento, a fome e a inflação, enquanto o Exército se mantinha nas trincheiras sob cerrado fogo alemão. A manutenção dos compromissos militares com a Entente destruíram definitivamente qualquer intenção de um movimento político moderado que acabasse com a autocracia czarista. Lênin, líder do partido bolchevique, lançou seu manifesto intitulado As Teses de Abril, no qual defendia em dois slogans populares: o direito ao “pão, paz e terra” e “todo o poder aos sovietes”.

O governo provisório de Kerensky cairia pouco tempo depois sem esboçar resistências. Os bolcheviques, através do controle dos principais sovietes, iniciaram a Revolução de Outubro, derrubando Kerensky e instituindo um Conselho de Comissários do Povo. A Revolução, denominada pelo historiador Richard Pipes como “golpe de Estado bolchevique”, foi um dos marcos mais importantes da História do século XX, pois inaugurava uma nova era baseada nos preceitos do socialismo marxista. O jornalista norte-americano John Reed eternizaria aquele movimento através de seu clássico Dez dias que abalaram o mundo.

A revolução socialista, entretanto, não estava ainda consolidada. Os “russos brancos”, constituídos por vários grupos conservadores e moderados, organizaram a contrarrevolução. As potências estrangeiras esboçariam uma tentativa de intervenção na Rússia soviética, entretanto, os desgastes oriundos da Grande Guerra serviram para esfriar o ânimo intervencionista. Os países capitalistas, após a consolidação do socialismo soviético em 1922, se limitariam a impor um “cordão sanitário” contra o novo regime de Moscou.

O primeiro desafio do novo governo revolucionário foi, portanto, enfrentar a contrarrevolução. Trostky, que aderira aos bolcheviques, organizou o chamado “Exército Vermelho”, que seria responsável pela resistência militar socialista e pelo fuzilamento de toda a família Romanov. No plano internacional, Lênin aceitou as duras imposições da Alemanha para assinar a paz que retiraria a Rússia bolchevique da guerra. Em março de 1918, o Tratado Brest-Litovsk celebrava uma paz em separado entre a Alemanha e o novo regime russo, mas impunha a perda dos territórios da Ucrânia, Polônia e várias outras possessões em favor dos alemães. A paz de Versalhes acabaria anulando o Tratado de Brest-Litovsk.

No plano econômico, como bem salientou o historiador E. H. Carr, Lênin lançaria as bases do “comunismo de guerra”, um programa constituído por medidas radicais que tinham por objetivo sustentar o Exército Vermelho contra a ameaça branca. A principal medida do “comunismo de guerra” foi a requisição forçada da produção agrícola. Os kulaks, fazendeiros russos, reagiram ao confisco boicotando o programa bolchevique. O comunismo de guerra, ao invés de criar soluções, agravou os problemas de desabastecimento, fome e inflação.

Diante da resistência camponesa, Lênin substitui o comunismo de guerra pela NEP ou Nova Política Econômica, cujo slogan “um passo atrás para dar dois passos à frente” sintetiza a preocupação em retomar práticas capitalistas como forma de garantir a normalização da economia para posteriormente implantar o socialismo. Lênin convocaria ainda, em 1919, o Komintern ou III Internacional, como uma espécie de organização do movimento comunista internacional tutelado por Moscou. Para que um Partido fosse admitido na III Internacional, era necessário renunciar ao nacionalismo patriótico em favor do internacionalismo proletário liderado pelos bolcheviques russos.

STALINISMO

Em 21 de janeiro de 1924, o grande líder da Revolução Russa de outubro de 1917, Vladimir Lênin, morre. O materialismo histórico soviético, que renega a religiosidade como instrumento de dominação ideológica, cultua o seu primeiro ícone, colocando-o ao lado do próprio Marx: o cadáver de Lênin é transformado em uma múmia a ser admirada e respeitada pelo novo regime. Com a morte de Lênin, a sucessão do poder na Rússia torna-se objeto de disputa entre Stálin e Trotsky.

A carreira política de Stálin despontou em 1922, quando foi indicado para a secretaria-geral do Partido Comunista, o que lhe permitia remover ou promover funcionários dentro da estrutura burocrática partidária. Em março do ano seguinte, Lênin sofreu um terceiro derrame, afastando-o da atividade política. Em 1925, Trotsky, que disputava com Stálin a hegemonia política do Partido, sofre uma grande derrota: é destituído do cargo de Comissário do Povo para a Guerra. Sem o controle da máquina militar, o trotskismo seria totalmente banido da Rússia Soviética e Stálin poderia impor sua vontade. Trotsky foi expulso do país em 1928, trilhando um amargo caminho pelo exílio, até decidir-se pelo México, onde seria morto com golpes de picareta por um agente soviético em 1940.

O culto a Stálin foi um outro traço marcante do período: a cidade de Tsaritsyn, por exemplo, passou a chamar-se Stalingrado. O assassinato do líder Estalinista Sergei Kirov, em Leningrado, iniciaria um dos mais terríveis períodos da história do totalitarismo Estalinista: os grandes expurgos. Os historiadores denominaram o período de setembro de 1936 a novembro de 1938 de “grande terror” ou iejovschina, adaptação do nome de Nikolai Iejov, chefe do Comissariado do Povo para Assuntos Internos, a temível NKVD, posteriormente KGB.

Os órgãos de repressão estabeleciam cotas de pessoas que deveriam ser investigadas, presas, processadas e mesmo executadas. Os números chegavam aos milhões e as condenações ultrapassavam a faixa de 85%. A morte de Kirov serviu de pretexto para que Stalin se livrasse de qualquer liderança política mais independente: qualquer um que fosse acusado de trotskismo, ou seja, colaborar com a conspiração antissoviética, era julgado em termos de exceção, sem direito a apelar ou ao pedido de perdão. O veredito, invariavelmente, era a execução.

Os processos de Moscou, como ficaram conhecidos estes julgamentos dos antigos líderes do Partido, foram um espetáculo dantesco de parcialidade e violência contra os direitos individuais: entre outras arbitrariedades, o réu era proibido de apreciar a peça processual, exceto poucas horas antes de ser enviado ao tribunal. Grigori Zinoniev, Lev Kamenev, outrora membros do próprio Politburo, foram executados; Nikolai Bukharin, que chamou Stálin de “novo Gengis Khan”, foi fuzilado em 1938; Nikolai Iejov, que iniciara os expurgos, também foi condenado à morte, sendo substituído por Lavrenti Beria.

Dos 140 membros eleitos para o Comitê Central, apenas quinze permaneciam em liberdade três anos depois do início da “iejovschina”. Cerca de 2/3 dos oficiais de alta patente foram executados: 3 dos 5 marechais e 63 dos 72 generais foram mortos, devido ao medo de Stalin de sofrer um golpe “bonapartista”. Somente em fevereiro de 1956, durante o XX Congresso do Partido Comunista da URSS, o novo líder, Nikita Kruschev, inicia um processo de “desestalinização”, isto é, a denúncia pública dos crimes e culto à personalidade de Stálin.

Na literatura, o escritor inglês George Orwell publicou Animal Farm (Revolução dos Bichos) e 1984, obras em que denunciava o stalinismo, mostrando que a utopia marxista-leninista havia sido traída por um regime tão insuportável quanto o autoritarismo de direita. De qualquer modo, Stálin imprimiu um ambicioso programa de desenvolvimento econômico, através dos planos quinquenais, que promoveram uma industrialização a partir de empresas de base e promoveu a coletivização forçada do campo, criando cooperativas e fazendas estatais.

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